quarta-feira, 16 de maio de 2012

A mídia a serviço da marginalização

Foi com grande pesar que li, há alguns dias, uma reportagem publicada na revista "Bloomberg Markets", edição de maio de 2012, sobre a realidade por detrás da construção de usinas hidroelétricas na Amazônia. E é realmente uma pena constatar que, no final das contas, precisamos mesmo recorrer à mídia internacional para sabermos o que realmente acontece no nosso próprio país, em toda a sua vastidão.
A mídia nacional omite, mente, forja dados, para que nós brasileiros não tenhamos contato com o que acontece por aqui. É uma mídia extremamente seletiva, que nos deixa de fora da informação e que crê que tem o direito de nos fazer acreditar no que não existe. Ela nos mostra um Brasil que vai melhorando a passos de gigante, como realmente é, que vai crescendo em sua economia, política internacional, etc, mas não nos mostra o custo de tudo isso. Não mostra o que de fato tem urgência de mudança e nos apresenta um Brasil inflado, que vai se levantando diante do mundo, mas que não tem alicerces fortes e definitivos. Ou seja, num certo aspecto, nos mostra um Brasil de mentira.
Nessa mesma vertente, esta mídia é cruel, pois incita as pessoas a terem atitudes e a mostrarem que acreditam em certos comportamentos que, no bem viver de hoje, são aceitos por levarem o Brasil cada vez mais a se tornar um país educado e em fase de pleno desenvolvimento. Como exemplos disto, temos a lei criada para a retirada definitiva das sacolas plásticas dos supermercados e o aumento gradativo de ciclistas nas ruas. São mudanças de comportamento favoráveis? Sim, claro que são, mas se a população já estivesse inserida numa cultura que perpetuasse essas mudanças, que as compreendesse e executasse com plena segurança. No Brasil nunca houve a preocupação com o meio ambiente, com a sustentabilidade. Que apoio, que instrução, que suporte foi dado à população para que pudesse substituir as sacolas de forma eficaz? Que educação, que apoio foi dado à população para, de repente, incitarem os ciclistas a se "jogarem" às ruas com suas bicicletas, disputando espaços com pedestres, carros, ônibus, caminhões e outras bicicletas? Que estrutura viária as cidades têm para isso? Resposta: adivinhem? NENHUM! NENHUMA! Os ciclistas foram litaralmente jogados na jaula do leão, por assim dizer. Foram jogados num perigo como dinamite para explodir a qualquer momento. Eles próprios não tem essa cultura do transporte em bicicleta. Os outros motoristas não respeitam a si próprios, quanto mais a um ciclista. E assim vemos notícias de mortes praticamente todos os dias. Mas, é bonito. É bonito dizer que vivemos num país que se preocupa com o meio ambiente, que procura soluções alternativas. É bonito dizer que o paulistano, por exemplo, como o americano, vai de bicicleta ao trabalho. Ora, por favor!!
Então, a mídia incita e incentiva tudo isto porque convém. Convém acreditarmos no que não existe, na mentira. E desta forma continuamos a perpetuar os modelos de sempre como nossos gestores, como aqueles que elegemos para nos governar, pois são eles que estão ajudando o Brasil a seguir como está. Assim, é uma mídia que marginaliza, pois nos deixa às margens da realidade, nos deixa cegos.
Voltando ao começo da postagem, precisei ler uma reportagem veiculada na mídia internacional para ver o que realmente está acontecendo com relação à construção das usinas hidroelétricas. Mostra-se tudo isto como necessário, para que o Brasil possa produzir a energia necessária para acompanhar seu desenvolvimento. Isto é certo, mas poderia ser feito de outra forma, não tão agressiva à natureza e as pessoas que dela dependem. Na reportagem da revista referem-se à construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, com finalização prevista para 2019. Tudo muito necessário, uma obra digna de admiração pela importância e pelo seu tamanho, mas aqui ninguém fala às claras sobre os acordos políticos e ajudas a campanhas que estão por detrás desta obra. Ninguém fala sobre o preço altíssimo que o Brasil terá que pagar. O preço de desocupar centenas de pessoas dos lugares que construiram desde que nasceram e de ver suas vidas acabarem por ali. O preço de acabar com grande parte da fauna e flora da região. O preço de acabar com a vida do rio e arredores. O preço de ver como tudo isso vai refletir na própria floresta amazônica e no mundo. O preço de mergulhar o Brasil numa dívida sem fim.
Aqui ninguém toca no assunto, mas, com certeza, lá fora, muitos sabem muito mais e melhor como toda esta triste história vai acabar.
Um abraço a todos.





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